Pular para o conteúdo
Início » Imagem de mais de 300 anos da padroeira de Curitiba está sendo restaurada

Imagem de mais de 300 anos da padroeira de Curitiba está sendo restaurada

Um dos marcos da história de Curitiba ganha um novo capítulo justamente no mês em que a cidade celebra sua padroeira, Nossa Senhora da Luz dos Pinhais, nesta terça-feira (8/9). A segunda imagem mais antiga da santa na capital paranaense, do século XVIII, está sendo restaurada. O trabalho começou no início do ano e entra agora em sua fase final, com previsão de conclusão ainda neste mês de setembro.

A restauração da imagem da padroeira é resultado de um projeto aprovado pelo Programa de Apoio, Fomento e Incentivo à Cultura de Curitiba, na modalidade Mecenato Subsidiado, da Fundação Cultural de Curitiba.

A ideia surgiu em 2022, quando o Museu de Arte Sacra da Arquidiocese de Curitiba (Masac), onde a imagem fica exposta para o público, estava fechado para restauro. A conservadora e restauradora Ana Eliza Caniatti fez um levantamento da peça e começou a elaborar o projeto junto com o produtor Gilmar Kaminski.

“Ela é a imagem mais importante do Masac”, explica Ana Eliza. A escultura de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais é a segunda imagem da santa que chegou à cidade. Produzida em Portugal, a peça foi encomendada em 1716 e chegou por volta de 1720 para a inauguração da Igreja Matriz de Curitiba, local onde hoje está a Catedral Basílica Menor de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais.

Raio X da imagem

Ela pesa cerca de 60 quilos e é feita de terracota, com uma base de preparação que utiliza branco de chumbo, entre outros elementos. “O uso da base de branco de chumbo é incomum em estátuas”, aponta a restauradora. “Era mais comum em pinturas, porque favorece a profundidade quando as tintas são aplicadas. No tridimensional, é algo mais raro”, complementa.

Essa é apenas uma das características que demonstram a importância da imagem e que foram identificadas a partir de uma parceria do projeto de restauração com o Laboratório de Espectrometria de Massas e Quimiometria da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

A equipe de restauro contou com diversos exames e testes para determinar os materiais utilizados na obra, além de radiografias para analisar partes mais delicadas ou que já haviam passado por intervenções. Ana explica que o uso do pigmento azul da prússia, por exemplo, não permite determinar uma data precisa, mas ajuda a compreender o período e as condições em que a peça foi produzida.

Na hora de definir o processo de restauração, cada detalhe importa. Até mesmo a posição dos dedos do Menino Jesus que está ao lado da santa é analisada. “Há variações entre uma representação com um dedo apontando para cima e outra com dois dedos levantados em sinal de bênção. Não existe arte sacra sem essa atenção aos detalhes”, afirma a restauradora.

A imagem hoje não exerce a mesma função religiosa de quando ocupava o altar da igreja, mas tem valor inestimável para a história de Curitiba. “O fato de ela ser um documento museal também define muito do processo de restauro”, comenta o produtor Gilmar Kaminski.

A santa, por exemplo, tem dedos das mãos quebrados que não serão refeitos pela falta de referências sobre sua forma original. Esses detalhes, inclusive as partes danificadas ou os pontos em que a tinta se perdeu ao longo dos séculos, ajudam a contar a história da obra.

A equipe de Patrimônio Cultural da Prefeitura de Curitiba participa das decisões sobre o que será tratado. O trabalho inclui a higienização da peça e testes para a remoção de camadas de pintura aplicadas em restaurações anteriores, sempre sem comprometer a pintura original.

“A iconografia dessa imagem é bastante diferente, com detalhes que não vejo em outras imagens, como o xale que cobre a santa”, observa Ana Eliza.

Financiamento

A restauração de imagens centenárias é um processo lento, custoso e detalhado, que nem sempre pode ser realizado facilmente. Com o apoio da Lei de Incentivo à Cultura, foi possível reunir uma equipe ampla e dedicada. Cerca de 15 profissionais participam do projeto, entre historiadora, pesquisadora, restauradores e fotógrafa.

“Conseguir realizar o projeto por meio da lei de incentivo possibilita desenvolver o trabalho de forma consistente, com uma equipe completa, além de pensar ações de difusão e educativas a partir desse processo”, explica Gilmar.

Depois que a estátua retornar ao museu, estão previstas ações até o fim do ano, como palestras sobre restauração e visitas guiadas para diferentes grupos.  “Além da imagem, o projeto se amplia para algo que se relaciona com a própria história da cidade”, complementa o produtor.

“A importância religiosa é fundamental, pois foi uma padroeira da cidade, e agora também é um documento museal, de como a peça foi feita na época, dos traços da arte do século XVIII e de como a obra veio ao Brasil. É um documento material”, afirma Ana Eliza.

Como surgiu a devoção à Nossa Senhora da Luz

A celebração de Nossa Senhora da Luz tem origem na Europa. O culto remonta ao século XIV, na Espanha, mas seu principal mito fundador surgiu no século XV, em Portugal.

Em Curitiba, a primeira imagem de Nossa Senhora da Luz chegou por volta de 1640, com o paulista Suares do Vale, fugitivo de São Paulo que se instalou às margens do Rio Atuba. É dessa região que surgiu a lenda sobre a fundação da cidade. Segundo a tradição, a imagem da santa amanhecia voltada para a direção onde hoje está localizada a Praça Tiradentes.

Os povoadores seguiram a indicação e encontraram o Cacique dos Campos de Tindiquera. O local indicado pelo cacique, chamado “Coré-tuba”, ou “terra de muito pinhão”, tornou-se o marco zero de Curitiba.

Em 1995, um decreto do Papa João Paulo II reconheceu a devoção particular a Nossa Senhora da Luz dos Pinhais e a declarou padroeira municipal de Curitiba. Até hoje, a capital paranaense é uma das poucas cidades brasileiras cuja padroeira foi declarada pelo Sumo Pontífice.

Atualmente, essa primeira imagem faz parte do acervo do Museu Paranaense. A segunda imagem, que está sendo restaurada, tem 87 centímetros de altura, permaneceu no altar da Matriz até ser levada para o munícipio da Lapa, em 1894, antes da demolição da antiga igreja. O vigário que havia sido transferido levou a imagem junto.

Durante décadas, a peça ficou desaparecida e só foi encontrada novamente em 1970, na casa de uma moradora da Lapa. Hoje, integra o acervo do Museu de Arte Sacra da Arquidiocese de Curitiba, gerido pela Fundação Cultural de Curitiba.

 

FOTO: Luiz Pacheco/FCC.